Democracia pode esperar? Zelensky rejeita novamente eleições durante a guerra
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, voltou a descartar a realização de eleições enquanto durar a guerra contra a Rússia. Em declaração neste domingo (23), ele afirmou que uma votação neste momento seria “um tsunami que dividiria o país”. “Se quisermos destruir o país, então podemos avançar na direção das eleições durante estes tempos de guerra”, completou, argumentando que o processo eleitoral poderia dividir a sociedade e os soldados em um momento em que a nação precisa de unidade diante da invasão russa.
A manifestação ocorre depois que Mykhailo Fedorov, ex-ministro da Defesa e antigo aliado de Zelensky, passou a defender a retomada do processo eleitoral. Fedorov deixou o governo em julho, após um embate com o comandante das Forças Armadas, Oleksandr Syrskyi, sobre a condução da guerra e reformas no Exército. Ele acusava o comando militar de bloquear suas iniciativas, mas Zelensky decidiu manter Syrskyi no cargo e demiti-lo. Desde então, Fedorov passou a fazer críticas públicas ao governo que até pouco tempo integrava. “A democracia não pode ser mantida como refém pela Rússia”, afirmou na última terça-feira (18), defendendo a busca por “um mecanismo legal, seguro e realista” para permitir eleições mesmo em uma guerra prolongada.
Além do impasse político, a realização de eleições enfrenta obstáculos práticos. A Ucrânia está sob lei marcial, que impede votações durante o conflito. Uma eventual eleição teria de garantir a segurança de eleitores e candidatos, permitir o voto de centenas de milhares de militares no front e incluir milhões de ucranianos que estão no exterior ou vivem em territórios ocupados pela Rússia. O mandato original de Zelensky terminou em maio de 2024, mas a legislação ucraniana prevê a continuidade do presidente durante a lei marcial, até que um novo chefe de Estado possa ser eleito e tomar posse.
Pesquisa do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev indica que 57% dos ucranianos preferem que as eleições ocorram somente depois do fim dos combates. A maioria, porém, está longe de representar um consenso, e o adiamento prolongado amplia o debate sobre até quando uma democracia pode adiar a escolha popular.
A história mostra que não há uma resposta única para o dilema. Nos EUA, Abraham Lincoln manteve a eleição presidencial de 1864 no auge da Guerra Civil, e o país também realizou votações durante as duas guerras mundiais. Já o Reino Unido adiou as eleições gerais previstas para 1940 por causa da Segunda Guerra Mundial, voltando às urnas apenas em 1945. Israel também adiou votações em momentos de conflito, como em 1973, durante a Guerra do Yom Kippur. Os exemplos indicam que guerra e eleições não são necessariamente incompatíveis, mas a decisão depende do contexto e das condições de cada conflito.
Esta matéria foi publicada primeiro em Brasil · Gazeta do Povo e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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