Como 'power couples' da política alçaram primeiras-damas novatas ao Senado
Das 12 senadoras eleitas em 2026, sete têm vínculos familiares com políticos que ocupam ou ocuparam cargos de primeiro escalão no Executivo — como prefeito, governador ou presidente. O dado faz parte de levantamento exclusivo para a BBC News Brasil produzido pelo Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (LAPPCOM). O percentual chega a 58,3%, acima dos 28,6% registrados em 2018, quando também estavam em disputa dois cargos de senador por Estado.
Quatro das eleitas são ex-primeiras-damas e nunca ocuparam cargo eletivo. Em Alagoas, Marina JHC (PSDB) chega ao Senado enquanto o marido, João Henrique Caldas (PSDB), foi eleito governador no primeiro turno. Ela é nora de João Caldas, ex-deputado estadual e federal, e tem como primeira suplente a sogra, Dra. Eudócia. No Amapá, a dermatologista Rayssa Furlan (Podemos) — primeira mulher eleita senadora pelo Estado — é casada com o Dr. Furlan (PSD), eleito governador, e tem como primeiro suplente o cunhado, Neto Furlan. Ela foi secretária municipal de Mobilização e Participação Popular na prefeitura do marido.
Completam a lista Michelle Bolsonaro (PL-DF), casada com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e Gracinha Caiado (União Brasil-GO), esposa do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), derrotado no primeiro turno na disputa à presidência. Gracinha presidiu a Organização das Voluntárias de Goiás (OVG) e participou da criação do programa Goiás Social. As demais senadoras com vínculos familiares são Teresa Surita (MDB-RR), ex-mulher de Romero Jucá; Marília Arraes (PDT-PE), neta de Miguel Arraes, prima de Eduardo Campos e irmã da deputada federal Maria Arraes; e Mara Rocha (Republicanos-AC), irmã do ex-deputado federal Major Rocha.
Para a cientista política Mayra Goulart, coordenadora do LAPPCOM e professora da UFRJ, a eleição majoritária para o Senado favorece esse tipo de candidatura. "A candidatura ao Senado exige a capacidade de penetrar em diferentes territórios do Estado. E quando você se associa a um nome forte naquele Estado, tem maior facilidade de fazer seu nome chegar a diferentes redutos e municípios", afirma. Segundo ela, as esposas são justamente as estreantes neste pleito, o que relativiza a ideia de renovação, já que trazem consigo capital familiar. O levantamento é assinado também pelas pesquisadoras Giulia Gouveia (UFRRJ) e Vanilda Chaves (USP).
Das sete senadoras com vínculos familiares, cinco são de partidos considerados de direita, uma de centro e uma de esquerda. Goulart aponta ainda o investimento de siglas de direita na formação de quadros femininos. Michelle Bolsonaro presidiu o PL Mulher de março de 2023 a junho deste ano, período em que o partido ganhou mais de 72 mil novas filiadas, segundo levantamento do portal Metrópoles. Em resposta à BBC News Brasil, Gracinha Caiado afirmou que "conexões familiares, por si só, podem ser boas ou ruins" e que, no seu caso, a relação "sempre foi muito positiva e de resultados para o povo goiano". "Minha identidade não precisa ser construída em oposição à dele", declarou.
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