Como funcionava a suposta agência de cafetinagem ligada a Vorcaro
A Polícia Federal investiga, em um dos inquéritos derivados do caso Master, a possível existência de uma estrutura de cafetinagem e tráfico de pessoas supostamente ligada ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco. A apuração busca entender se a rede agenciava garotas de programa — em sua maioria estrangeiras, incluindo refugiadas de zonas de conflito como Ucrânia e Rússia — para festas e encontros reservados com autoridades e amigos do ex-banqueiro. Vorcaro nega as acusações.
Segundo essa linha de investigação, as mulheres eram levadas a eventos sem poder portar celulares e, de preferência, não falavam nem entendiam português. O objetivo seria garantir o anonimato das festas e ocultar quem participava e o que acontecia nelas. A PF também quer saber se havia menores de 18 anos entre as recrutadas, se elas eram trazidas ao Brasil e levadas a outros países sem documentação e se o esquema servia para "agradar" autoridades em eventos promovidos pelo ex-banqueiro.
Os diálogos atribuídos a Vorcaro e a suspeitos de atuar como seus intermediários indicam que ele teria participado da seleção das mulheres, autorizado pagamentos e financiado a estrutura, com aportes milionários em uma rede que se intensificou a partir de 2023. As mensagens mostram mulheres tratadas como "escravas" e "kengas", que estavam sendo "doutrinadas" para o trabalho. A estrutura combinava uma agência de modelos, intermediários em diferentes países e recursos do ecossistema financeiro do Master.
As conversas apontam uma divisão de funções: um promotor de eventos próximo a Vorcaro seria o executor, encarregado de encontrar e "doutrinar" as mulheres; um brasileiro com empresa sediada nos Estados Unidos cuidava da logística, encomendando mulheres a recrutadores, reservando voos e hotéis e liberando dinheiro. Vorcaro, conforme as mensagens, decidia quem entrava, quem saía e quanto cada uma receberia. O grupo era dividido em times — um deles, o "Famiglia A", ficaria sempre com o ex-banqueiro, enquanto o "B" atenderia eventos de grande volume, principalmente os usados para cooptação de autoridades. As mais jovens integravam um grupo chamado de "creche".
As recrutadas eram levadas a eventos em São Paulo, Rio, Paris, Londres, Roma e Dubai. Em uma festa de Halloween em 2023, teriam sido contadas cerca de 110 mulheres de dois grupos agenciadores diferentes; em Londres, em abril de 2024, quase 100 garotas, com os celulares recolhidos antes dos eventos. Entre as recrutadas havia uma ucraniana de 19 anos que, segundo um interlocutor apontado como agenciador, não tinha para onde voltar por causa dos bombardeios. Uma das agências emitia faturas repassadas por Vorcaro ao financeiro do Master, e o investimento total era de cifras milionárias ainda não totalmente rastreadas.
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