Como a figura de Maduro vai se apagando na nova Venezuela de Delcy Rodríguez: 'Não há intenção de manter viva sua memória'
Quase dez meses após a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, a figura do ex-presidente venezuelano vem se diluindo nos discursos e na agenda oficial da Venezuela governada por Delcy Rodríguez. A cena que melhor ilustra essa mudança ocorreu em 22 de setembro, em um hotel de Nova York: Rodríguez, presidente interina cada vez mais consolidada, posou sorridente ao lado de Donald Trump, fazendo um sinal de V com os dedos, enquanto o mandatário americano erguia o polegar. A cerca de 14 quilômetros dali, no Brooklyn, Maduro aguardava julgamento, ao lado da esposa, Cilia Flores, respondendo a acusações que incluem narcotráfico e tortura.
No dia seguinte, ao discursar na Assembleia Geral das Nações Unidas, Rodríguez não mencionou Maduro em nenhum momento — tampouco Hugo Chávez ou as circunstâncias que a levaram a ser porta-voz do país. Em vez disso, agradeceu a Trump "pela sua disposição de tomar o caminho das relações diplomáticas e da cooperação". A última participação de um presidente venezuelano no evento havia sido em 2018, no próprio mandato de Maduro.
A mudança de tom é medida em números. A jornalista venezuelana Valentina Gil analisou, para o portal TalCual, os pronunciamentos de Rodríguez após a operação americana de janeiro: em janeiro, ela citou Maduro até 86 vezes; em abril, o número caiu para oito menções. Segundo Gil, sempre que Rodríguez se reunia com algum alto funcionário dos Estados Unidos, deixava de mencionar o ex-presidente. A tendência se consolidou após os terremotos de 24 de junho. Nos primeiros discursos, Rodríguez chamava Maduro e Flores de "dois heróis que temos como reféns"; depois, passou a se referir apenas a ações de governo ou à relação profissional entre ambos.
Gestos linguísticos acompanham o apagamento. Ao tomar posse, Rodríguez declarou que assumia "como vice-presidente executiva do presidente Nicolás Maduro Moros" e se apresentava como "presidente em exercício". Há pouco mais de um mês, porém, dezenas de comunicações oficiais já a tratam como "presidente", "mandatária nacional" ou "chefe de Estado" — a expressão "em exercício" apareceu em apenas duas ocasiões.
Para o analista Phil Gunson, do International Crisis Group, "não se percebe intenção ativa de manter viva a memória de Maduro e Cilia Flores". Ele observa que o terremoto ajudou a diluir a figura do ex-presidente, já que as preocupações da população se voltaram para outras questões, e que, ao tratar das relações com os EUA, o governo sempre o faz em termos positivos. O governo venezuelano não se pronunciou publicamente em defesa de Maduro após as novas acusações de tortura apresentadas pelos Estados Unidos. Além dos discursos, símbolos vêm sendo retirados: uma fotografia gigante de Maduro e Flores foi removida em frente a um centro comercial de Caracas, e cartazes com imagens de Chávez e Simón Bolívar no Palácio da Justiça deram lugar a peças com o slogan "A Venezuela renasce".
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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