Como a deusa grega Afrodite se tornou uma das figuras mais controversas da história da arte
A representação da deusa Afrodite — conhecida pelos romanos como Vênus — provoca debates há séculos e está no centro de uma exposição aberta no Museu Ashmolean, em Oxford, no Reino Unido. A mostra "Afrodite: A Criação de uma Deusa" investiga a história da divindade e mostra como ela se tornou alvo de tantas controvérsias culturais.
Segundo a mitologia grega, Afrodite nasceu da espuma do mar formada após o titã Cronos castrar o próprio pai, Urano, e lançar seus órgãos genitais na água. A deusa deslizou sobre as ondas até a ilha de Chipre, onde flores brotaram a cada passo que ela dava. Já a versão histórica situa seu surgimento no Chipre por volta de 1200 a.C., como divindade com características herdadas de deusas mais antigas do Oriente Médio, como Ishtar, Astarte e Hator.
"A sexualidade, o amor e a fertilidade eram suas principais características", explica Anja Ulbrich, curadora da exposição, à BBC. Segundo ela, Afrodite não se limitava ao amor romântico: abrangia todas as formas de amor físico e da procriação, entre humanos, animais e plantas. A deusa também tinha facetas menos conhecidas — participou da Guerra de Troia, foi cultuada pela marinha da Grécia Antiga e, segundo um dos mitos, é considerada fundadora da civilização romana, por meio de seu filho Eneias, que fugiu para a Itália após a queda de Troia.
Até por volta de 350 a.C., Afrodite era retratada vestida, como as outras deusas do Olimpo. A mudança veio com a Afrodite de Cnido, de Praxíteles, a primeira escultura da Grécia Antiga a representar uma mulher completamente nua. O original se perdeu, mas cópias romanas posteriores, como a Vênus Capitolina, permitem ter ideia de sua aparência. Antes de Praxíteles, apenas figuras masculinas eram representadas nuas. A diferença central estava na postura: na obra, Afrodite é surpreendida durante o banho, parece tímida e vulnerável e tenta cobrir o corpo, enquanto os homens nus eram retratados em poses confiantes e heroicas. A pose ganhou nome próprio — Vênus Pudica — e, segundo Ulbrich, foi "revolucionária".
A escultura foi reproduzida milhares de vezes por artistas romanos e sua influência atravessou o Renascimento, reaparecendo em obras de Masaccio, Botticelli, Rafael e Ticiano, e depois no Barroco, com Rubens e Velázquez, no século 19, com Cabanel e Manet, e no século 20, com Modigliani e Yves Klein. A erotização da imagem da deusa também gerou reações: em 1880, o escritor Mark Twain classificou a Vênus de Urbino, de Ticiano, como "a imagem mais repugnante, desprezível e obscena do mundo". Em 1914, a sufragista Mary Richardson atacou com uma faca de açougueiro a Vênus ao Espelho, de Velázquez, na National Gallery, em Londres, golpeando a tela pelo menos três vezes. "Eu não gostava da maneira como os homens ficavam olhando para ela de boca aberta o dia inteiro", disse ela depois, ao explicar um dos motivos do ataque.
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