'Bons pagadores' do Fies criticam o Desenrola e cobram no Congresso descontos iguais aos de inadimplentes
‘Bons pagadores’ do Fies criticam o Desenrola e cobram no Congresso descontos iguais aos de inadimplentes
Estudantes que mantiveram os pagamentos do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) em dia pressionam o Congresso por condições de renegociação semelhantes às oferecidas a quem estava inadimplente. O movimento ganhou força após o Novo Desenrola Brasil voltar a incluir formalmente, neste ano, os estudantes com dívidas atrasadas no programa, com descontos de até 99% e parcelamento em até 180 meses.
Enquanto isso, a Medida Provisória nº 1.373/2026, voltada aos adimplentes, prevê desconto de apenas 12% para quitação à vista e criou o Fies Empreendedor, linha de crédito de até R$ 80 mil para pessoas físicas e R$ 180 mil para empresas. Na Câmara, o PL 1.306/2024, da deputada Dayany Bittencourt (União-CE), propõe igualdade de tratamento entre os dois grupos. A proposta foi aprovada por unanimidade na Comissão de Educação e recebeu parecer favorável na Comissão de Finanças e Tributação, mas ainda aguarda inclusão na pauta do colegiado. Outros quatro projetos sobre o tema tramitam em conjunto.
O movimento, que reúne mais de 2 mil participantes no WhatsApp e quase 9 mil seguidores no Instagram, afirma que as renegociações criaram uma “sensação de injustiça”. “O pessoal não quer fazer um novo financiamento. Queremos nos livrar do financiamento estudantil”, diz Nathã Balbinot, bacharel em Direito e um dos representantes do grupo. “Queremos os mesmos descontos, de 77% a 99%, e o parcelamento do saldo remanescente após o abatimento.”
O programador Lucas Garcia, de 28 anos, de Belém (PA), paga parcela mensal de R$ 767 e ainda tem cerca de oito anos de financiamento pela frente. “Quem deixou de pagar ganhou até 99% de desconto e ainda pôde parcelar o restante da dívida. Já quem honrou os compromissos recebeu apenas 12% de desconto para pagamento à vista”, afirma. Ele diz que não pretende aderir ao Fies Empreendedor: “O governo ofereceu uma nova dívida para quem já está pagando uma”. Durante a pandemia, após o fim da carência de 18 meses, Garcia ficou desempregado e chegou a pedir dinheiro emprestado para não atrasar as parcelas. Hoje, empregado como programador há quatro anos, afirma que o financiamento limita seus planos: “Ainda moro com meus pais. A parcela compromete uma parte importante da minha renda e atrasa objetivos como comprar um imóvel”.
Segundo o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), até o fim de julho o Desenrola Fies havia realizado 113.444 renegociações, envolvendo R$ 5,92 bilhões em dívidas. Após os descontos, o saldo caiu para R$ 1,28 bilhão, uma redução superior a R$ 4,65 bilhões. O programa tem potencial para regularizar a situação de mais de 1 milhão de estudantes com contratos assinados até 2017 e que estavam na fase de amortização em maio de 2026. Contratos firmados a partir de 2018 não fazem parte do público-alvo desta etapa.
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