As batalhas que mostram polarização histórica no Brasil: de atentado, às revoltas e guerras
A polarização que marca a disputa presidencial deste ano, com grupos de apoiadores organizados em torno de Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), não é um fenômeno inédito na história brasileira. Segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, o país atravessou embates profundos desde o fim do século 19, embora o cenário atual apresente particularidades.
Para o sociólogo Giuliano Salvarani, professor da ESPM, a trajetória nacional sempre foi acompanhada por divisões — do antagonismo entre senhores e escravizados à oposição entre monarquia e república, entre ditadura e democracia, entre voto direto e indireto. Ele avalia que Lula e Jair Bolsonaro protagonizaram talvez a maior polarização da nova República, período posterior ao fim da ditadura. O historiador Fábio Ferreira, da UFF, distingue a disputa democrática entre adversários do ódio que busca aniquilar o divergente.
Os primeiros anos após a Proclamação da República, em 1889, já registraram embates duríssimos, segundo o cientista político Rodrigo Prando, da Universidade Presbiteriana Mackenzie. A Revolução Federalista, também chamada de Guerra da Degola, opôs tropas do sul ao governo de Floriano Peixoto, que deixou 10 mil mortos. Na capital federal, a Revolta da Armada expressou o confronto entre Marinha e Exército. A repressão rendeu a Peixoto a alcunha de "Marechal de Ferro".
O professor Ely Carneiro de Paiva, da Unicamp, lembra que as rivalidades da época iam além dos insultos e buscavam retirar a legitimidade do adversário, tratado como ameaça à República. Esse processo culminou no atentado contra o presidente Prudente de Morais, em 5 de novembro de 1897, durante cerimônia de recepção às tropas que haviam derrotado os revoltosos de Canudos. O jovem praça Marcelino Bispo de Melo apontou uma garrucha contra o presidente, mas não conseguiu atirar. O ministro da Guerra, marechal Carlos Machado de Bittencourt, morreu, e o coronel Luiz Mendes de Moraes ficou ferido. Paiva relata que a investigação tentou reconstruir a rede política por trás do crime, com cartas queimadas na noite do atentado, e que o episódio fortaleceu a candidatura de Campos Sales, seu sucessor.
Já no século 20, a República Velha se assentou na alternância entre elites paulistas e mineiras, com eleições controladas pelo voto de cabresto. Nesse contexto, jovens militares de classe média se revoltaram, dando origem ao tenentismo. A cientista política Mayra Goulart, da UFRJ, vê paralelos entre a polarização atual e os contextos do movimento tenentista, da Revolução de 1932 e da Guerra Fria. O que muda agora, segundo ela, é a capilaridade proporcionada pelas redes sociais.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
Continue neste assunto
Comentários nesta matéria
Comentário público sobre este texto. Após envio, a redação analisa antes de publicar. Para proposta de pauta ou assuntos privados, use mensagem à redação na sua conta.
Ainda não há comentários publicados nesta matéria.
Sua avaliação desta matéria
Clique nas estrelas para avaliar — pediremos que entre com seu e-mail.
Entre com seu e-mail para comentar nesta matéria (enviamos um link rápido, sem cadastro longo).
Entrar para comentar