A vitória de Lula explicada matematicamente
O resultado das urnas que deu vitória a Luiz Inácio Lula da Silva foi reconhecido pelo Partido Liberal, legenda do candidato derrotado. Apesar disso, circulam nas redes sociais narrativas de que o resultado seria "matematicamente impossível", com insinuações de fraude sem comprovação. Cientistas políticos e analistas de dados ouvidos pela BBC News Brasil explicam o que tornou possível a vitória — a primeira vez, desde a redemocratização, que um derrotado no primeiro turno venceu a segunda etapa.
No primeiro turno, Flávio Bolsonaro terminou com cerca de 2,2 milhões de votos de vantagem sobre Lula. O cenário era desafiador para o petista por dois motivos: a virada dependia de atrair parte significativa dos eleitores dos demais candidatos, majoritariamente no campo da direita, e de ampliar a participação de quem não havia optado por candidatura alguma, reduzindo abstenção, brancos e nulos — algo que, historicamente, nunca havia registrado queda forte entre os dois turnos. Como o voto é secreto, é impossível saber como cada eleitor mudou de posição, mas o saldo final mostra que os dois fenômenos ocorreram, segundo o cientista político Jairo Nicolau, professor da Fundação Getúlio Vargas.
No segundo turno, quase 3 milhões de eleitores a mais compareceram às urnas em relação ao primeiro, reduzindo a abstenção, e os votos brancos e nulos caíram cerca de 1,8 milhão. Somados aos 9,316 milhões que haviam escolhido candidatos da terceira via, chegou-se a 14,09 milhões de novos votos válidos em disputa. Lula conquistou a maioria: atraiu 10,376 milhões de eleitores e somou 64,256 milhões de votos (51,79% dos válidos), enquanto Flávio obteve 3,7 milhões de novos eleitores e terminou com 59,8 milhões (48,21%).
Os números revelam apenas o saldo total da migração, ressalta Nicolau. Na prática, parte dos eleitores da terceira via pode ter migrado para o voto nulo no segundo turno, enquanto parcela maior dos que anularam no primeiro pode ter optado por um dos dois candidatos. Os dados do TSE não permitem detalhar esse fluxo devido ao sigilo dos votos. Para o cientista político, a migração de parte relevante do eleitorado de candidatos como Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema para Lula ocorreu porque há uma parcela do eleitor brasileiro bastante volúvel, que transita entre candidatos de direita e de esquerda — algo que já havia acontecido em 2022.
A tese de que a prorrogação da votação até 19h teria afetado a legitimidade do pleito foi rebatida por dados do próprio Tribunal Superior Eleitoral. Apenas 34.393 votos foram registrados após 17h, número muito menor do que a vantagem obtida por Lula, de 4,4 milhões de eleitores. O encerramento estava previsto para 17h, mas foi prolongado por decisão do ministro do STF Cristiano Zanin após pedidos das campanhas, devido a dificuldades de acesso aos locais de votação. O presidente do TSE, ministro Kássio Nunes Marques, afirmou em nota que "todos os questionamentos feitos dentro do devido processo legal serão analisados e respondidos" — fala que se refere a denúncias das campanhas sobre supostas ilegalidades na corrida eleitoral, ainda a serem analisadas pelo Tribunal.
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